ANOS DE CHUMBO

Frei Betto cobra punição por crimes cometidos pela ditadura

No aniversário de 61 anos da tomada de poder pelos militares, o religioso nascido em BH cobra punição pelos crimes cometidos pela ditadura em meio a lançamento

'Eles ainda estão aqui:  os torturadores, os assassinos, os golpistas e os nazifascistas.   A extrema direita ameaça  nossa frágil democracia''

 -  (crédito: João Laet/Divulgação – 13/10/2020)
'Eles ainda estão aqui: os torturadores, os assassinos, os golpistas e os nazifascistas. A extrema direita ameaça nossa frágil democracia'' - (crédito: João Laet/Divulgação – 13/10/2020)

Por Bruno Mateus, especial para o Estado de Minas — Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, de 80 anos, tinha 19 quando os militares, com amplo apoio de setores da sociedade civil, da imprensa e de grandes empresários, tiraram João Goulart da Presidência e tomaram o poder. Os episódios ocorridos entre 31 de março e 1º de abril de 1964 deixaram sequelas históricas e definiram os rumos de um país comandado por uma ditadura durante mais duas décadas.

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O frade dominicano, jornalista e escritor mineiro estava em Belém quando o golpe de Estado, que completa 61 anos nesta terça-feira (1º/4), foi consumado. Dirigente nacional da Ação Católica Brasileira e militante de esquerda desde a adolescência, ele participava do congresso latino-americano de estudantes. O clima pesou, o evento foi dissolvido e um crescente número de viaturas policiais passou a fazer parte do cenário da capital paraense. Detalhes dos dias que sucederam o golpe são descritos em Quando fui pai do meu irmão (Alta Books), livro lançado em fevereiro deste ano. “Em junho de 1964, sofri minha primeira prisão, no Rio, onde morava, pelo serviço secreto da Marinha”, relembra.



Perseguido pela ditadura, Frei Betto foi preso novamente em 1969. Dessa vez, foram quatro longos anos passando por diversas casas de detenção. A experiência inspirou Cartas da prisão, Diário de Fernando – Nos cárceres da ditadura militar brasileira, O dia de Ângelo e Batismo de sangue – este último lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1982 e foi levado ao cinema pelo mineiro Helvécio Ratton em 2006.



Escritor compulsivo, Frei Betto construiu uma carreira literária profícua. Autor de 78 livros, está sempre envolvido na produção simultânea de dois, três projetos. Em breve, lançará Jesus amoroso, último volume da tetralogia sobre os evangelhos publicada pela editora Vozes. Avizinha-se ainda um novo romance, sobre o qual mantém sigilo. “Como bom mineiro, continuo a trabalhar em silêncio”, afirma.

Referência no ativismo em movimentos sociais e pelos direitos humanos, o frade é assessor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e do governo de Cuba no Plansan — Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional. Tal função o leva cinco ou seis vezes por ano à ilha socialista, de onde concedeu esta entrevista.

Ao rever 1964, ele acredita que o Brasil atual guarda semelhanças com o de outrora. Segundo o escritor, a ascensão da extrema direita no país representa uma ameaça à democracia e toda vigilância é necessária. Também diz que é preciso acertar contas com o passado e cobra que os crimes cometidos durante a ditadura sejam julgados: “Há que aprofundar a busca pelos mortos e desaparecidos e criminalizar os responsáveis”.

Sessenta e um anos após o golpe de Estado, que tipo de acerto de contas o Brasil precisa fazer com o passado?
Quem não tem memória não tem história. Enumero alguns acertos: revogar a esdrúxula lei de anistia recíproca, que tornou imune e impune torturadores e assassinos. Ao contrário de Chile, Argentina e Uruguai, aqui os responsáveis pelos hediondos crimes cometidos pela ditadura, que durou 21 anos, jamais foram julgados e punidos. Só agora, devido à tentativa de golpe bolsonarista, generais estão sendo culpabilizados. A anistia recíproca manteve aquecida, nos quartéis, a cultura golpista que aflorou no dia 8 de janeiro de 2023. É preciso também investigar os genocídios praticados pela ditadura em aldeias indígenas, como descrevo em meu romance “Tom vermelho do verde” (Rocco). Há que aprofundar a busca pelos mortos e desaparecidos, criminalizar os responsáveis e indenizar as famílias. Toda escola deveria ter a obrigação de incluir em seu currículo o ensino dos crimes cometidos pela ditadura militar de 1964.


O senhor, inclusive, já declarou que o segmento da sociedade mais atingido pela ditadura foram os povos indígenas.
Sim, são quase um milhão de indígenas em nosso país e, em 2000, o Projeto Genoma comprovou que predomina no gene do brasileiro, não o sangue negro, como se esperava, e, sim, o indígena. Muitos pensam que o segmento mais sacrificado pela ditadura foram os que pegaram em armas ou os sindicalistas. Engano. Os indígenas foram o segmento mais reprimido. Milhares foram dizimados nas aberturas das rodovias Transamazônica, que liga a Paraíba ao Peru, e a 174, que liga Manaus a Boa Vista.

Há semelhanças entre o Brasil de 1964 e o atual?
Sim. Eles ainda estão aqui: os torturadores, os assassinos, os golpistas, os nazifascistas. A extrema direita ameaça nossa frágil democracia. E parcela considerável do povo sofre deseducação política e acredita nas mentiras propaladas, agora via internet, por aqueles que odeiam negros, homossexuais, mulheres combativas, imigrantes e o pensamento crítico.

Em que medida acontecimentos tão recentes como o 8 de janeiro de 2023 e o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe podem ensinar à democracia brasileira?
O fracassado golpe bolsonarista ensina que nossas Forças Armadas ainda estão contaminadas pelo golpismo, o horror à democracia, o elogio da tortura como método de investigação. Toda vigilância é necessária. Espero que a Justiça condene exemplarmente os golpistas para arrefecer os ânimos daqueles que ainda sonham com o período ditatorial.

Qual é a dimensão histórica da decisão do STF em tornar o ex-presidente Bolsonaro e outros militares réus por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes?
Investigar e levar ao banco dos réus Bolsonaro e seu bando golpista é uma forma de o STF reparar um grave erro cometido no passado: a reiterada aprovação da “anistia recíproca”, que manteve os torturadores e assassinos impunes e imunes, aquecendo o caldo de cultura derramado no 8 de janeiro de 2023.

O senhor esteve preso entre 1969 e 1973. Como o cárcere marcou sua vida?
Meu período de quatro anos de prisão sob a ditadura militar está detalhadamente descrito em quatro livros: “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), “Diário de Fernando – Nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), “O dia de Ângelo” (esgotado) e “Batismo de sangue” (Rocco)*, levado às telas de cinema pelo diretor Helvécio Ratton. O cárcere me fez perder o medo de lutar por justiça social, defender os direitos humanos, ser solidário aos pobres e excluídos. Dos quatro anos na prisão, os últimos dois passei na condição de preso comum, misturado a eles, com quem muito aprendi. Mas, sobretudo, a prisão representou para mim um longo retiro espiritual, de encontro com Deus e comigo mesmo. Foi a terapia que nunca fiz.

A espiritualidade o ajudou a enfrentar as atrocidades da ditadura?
A espiritualidade foi meu principal alimento na prisão. Ali me senti muito mais próximo de Jesus. Todos nós, cristãos, somos discípulos de um prisioneiro político. Jesus também foi perseguido, difamado, preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado à morte na cruz. Jamais tive ocasião de orar tanto como no cárcere. As obras de Teresa de Ávila e João da Cruz muito me alentaram. Imbuí-me de uma espiritualidade militante, conforme reflito na tetralogia que escrevo sobre os evangelhos. A editora Vozes já lançou “Jesus militante”, sobre o evangelho de Marcos; “Jesus rebelde”, sobre o de Mateus; e “Jesus revolucionário”, sobre o de Lucas. Em breve sairá “Jesus amoroso”, sobre o evangelho de João.

O senhor já publicou quase 80 livros, muitos deles sobre o período da ditadura, sua passagem pela prisão, recordações de companheiros. A literatura tem algo terapêutico para o senhor?
Sim, a literatura é terapêutica. O psicanalista Hélio Pellegrino, de quem eu era muito amigo, dizia que, na prisão, fui salvo da loucura graças às cartas que escrevia. Escrever é objetivar sentimentos e emoções, como acentuo em meu livro “Ofício de escrever” (Rocco). E ler é viajar pelo passado, presente e futuro sem sair do lugar. Não posso passar um único dia sem escrever. Sou compulsivo.

Como o senhor observa a repercussão de “Ainda estou aqui” para além do cinema? Houve manifestação em frente à casa de um dos torturadores de Rubens Paiva, por exemplo. Em fevereiro, o STF decidiu, por unanimidade, que analisará se a Lei da Anistia se aplica aos casos de desaparecimentos na ditadura. O senhor vê um novo momento na busca por memória, verdade e justiça no Brasil?
O filme de Walter Salles destampou o tema da ditadura, que a mídia e os militares tentavam clandestinizar, como se fosse melhor não tocar nessa grave chaga brasileira. As novas gerações estão cobrando de seus avós o que fizeram ao longo dos 21 anos de ditadura. Apoiaram? Se omitiram? Participaram da luta pela reconquista da democracia? Ainda há muito que contar sobre aquele período trágico dos anos de chumbo.

Novos projetos literários em vista? Em abril de 2020, no lançamento de “O diabo na corte”, o senhor me contou que sempre trabalha em dois ou três livros ao mesmo tempo.

Atualmente, trabalho no “Jesus amoroso”, sobre o Evangelho de João, o último da tetralogia editada pela Vozes, e em um romance sobre o qual prefiro não falar por enquanto. Como bom mineiro, continuo a trabalhar em silêncio…

Isso me faz lembrar daquela mesma entrevista, quando o senhor disse: “Trabalho em silêncio, sou mineiro em muitos sentidos, inclusive nesse”. Ser mineiro se manifesta em quais aspectos de sua personalidade?
Ser mineiro se manifesta em meu jeito moderado de me comportar, buscando o equilíbrio em todas as situações. E nas preferências culinárias, pois sou filho de Maria Stella Libânio Christo, considerada uma das mestras da cozinha mineira e autora do clássico “Fogão de Lenha – 300 anos de cozinha mineira”.

O senhor continua viciado em utopia?
Continuo. A utopia é o que me faz esperançar, verbo cunhado pelo professor Paulo Freire, meu guru. E a melhor tradução do que ele significa está no verso da canção de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.  

*Os livros podem ser adquiridos em freibetto.org

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postado em 31/03/2025 11:59
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