ANÁLISE

Como condenação de Marine Le Pen abala a direita radical francesa

A líder da direita radical foi impedida de concorrer a cargos públicos por cinco anos, o que frustrou seus planos.

Jordan Bardella, de 29 anos, é uma estrela em ascensão na direita radical francesa -  (crédito: Getty Images)
Jordan Bardella, de 29 anos, é uma estrela em ascensão na direita radical francesa - (crédito: Getty Images)

"Incrível." Essa foi a única palavra proferida em voz baixa por Marine Le Pen ao sair furiosamente de um tribunal de Paris na manhã de segunda-feira (31/03).

Ela deixou o tribunal mais cedo — pouco antes de saber que foi impedida de concorrer a um cargo público durante cinco anos, após ser considerada culpada por desvio de fundos da UE.

Sem sequer esperar que o juiz pronunciasse todos os detalhes da sentença, a chefe da Assembleia Nacional já sabia que estaria em apuros.

Não haveria comutação da inelegibilidade enquanto se aguarda o recurso. Ou seja, a barreira para concorrer a um cargo público — mais precisamente à Presidência da França em 2027 — era real e imediata.

Uma pena de prisão de quatro anos, dos quais dois serão suspensos, ainda aguarda recurso para ser executada.

Mas os seus planos políticos estão mortos.

A incredulidade de Le Pen pode ser melhor desculpada, talvez, pelo contexto do momento.

Quase se estabeleceu um consenso em todo o mundo político francês de que esta sanção final do tribunal não poderia, e não iria ocorrer.

Não foram apenas os seguidores de Le Pen que o disseram. Os seus inimigos concordaram, desde Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, ao primeiro-ministro François Bayrou, no centro, e ao ministro da Justiça, Gérard Darmanin, na direita.

Mas todos estavam errados. O juiz disse que a lei era a lei.

A lei tinha de fato sido endurecida recentemente — pelos mesmos políticos que agora estavam reclamando de sua aplicação — para tornar a penalidade por uso indevido de fundos públicos muito severa. Bem, disse o juiz em poucas palavras, agora deixe os políticos tomarem seu próprio remédio.

Talvez Marine Le Pen tenha sido ingênua em não prever esse resultado. Certamente parece que seu partido, o Reunião Nacional, estava singularmente despreparado para isso.

Então, quando se encontraram em uma reunião emergencial após o veredito, os líderes do partido estavam em um dilema.

Eles continuam como se ainda houvesse uma chance de Marine Le Pen concorrer em 2027?

Em teoria, ainda há uma (pequena) possibilidade. Ela entrou com um recurso. O recurso pode ser acelerado e julgado no fim deste ano ou no início de 2026. Um veredito seguiria no fim de 2026.

Uma decisão diferente na audiência de apelação poderia diminuir o período de inelegibilidade, ou removê-lo completamente — nesse caso, ela ainda poderia concorrer. Mas as chances devem ser consideradas pequenas.

Ou eles deveriam prosseguir com o plano B — ou seja, nomear o presidente do partido, Jordan Bardella, como de fato o homem que concorrerá no lugar de Marine Le Pen?

Jordan Bardella.
Getty Images
Jordan Bardella, de 29 anos, é uma estrela em ascensão na direita radical francesa

Essa pode ser uma avaliação mais realista do que está por vir. Mas recorrer a Bardella muito rapidamente seria indecoroso. E, de qualquer forma, nem todos no partido são fãs do jovem político.

À noite, a escolha foi feita: em uma aparição na TV, Marine Le Pen saiu brigando, dizendo que não tinha planos de se retirar da cena política.

Denunciando o que ela chamou de decisão "política" do juiz e uma "violação do estado de direito", ela pediu um julgamento rápido de apelação, para que seu nome pudesse ser limpo — ou pelo menos a inelegibilidade suspensa — a tempo para as eleições de 2027.

"Há milhões de franceses que acreditam em mim. Por 30 anos, tenho lutado contra a injustiça. É o que continuarei fazendo até o fim", disse ela.

Palavras de luta — mas na realidade o futuro parece muito incerto. E há muitas perguntas sem resposta.

Qual será, por exemplo, o efeito da decisão do tribunal na votação do RN?

No curto prazo, podemos esperar um clamor e um aumento no apoio ao partido. Por quê? Porque o que aconteceu se encaixa perfeitamente na narrativa do RN de que a direita populista é uma vítima do "sistema".

Ninguém que provavelmente votará no RN culpa seriamente Marine Le Pen por financiar ilegalmente seu partido usando fundos do parlamento da UE. Todos sabem que praticamente todos os partidos políticos franceses recorreram a métodos desonestos semelhantes no passado.

Da mesma forma, sua punição "draconiana" — ser proibida de concorrer à presidência — será interpretada como um distintivo de honra: prova de que ela sozinha está enfrentando os poderes constituídos.

No longo prazo, porém, o aumento pode não ser tão poderoso. A verdade é que Marine Le Pen é um grande trunfo para o RN. Esta mulher endurecida pela batalha, sentimental, amante de gatos, durona e sofredora é vista de maneira afetuosa por seus apoiadores, que sentem que a conhecem pessoalmente.

Jordan Bardella também é uma figura popular, mas com apenas 29 anos é difícil vê-lo ocupando seu lugar. Se Marine Le Pen realmente não puder concorrer em 2027, a RN perde muito de seu apelo.

O que é certo é que muitos candidatos com potencial dentro da direita, mas fora da RN — Laurent Wauquiez, Bruno Retailleau, por exemplo — veriam na candidatura de Bardella uma grande oportunidade para si mesmos.

A outra incógnita é a vingança.

Marine Le Pen continua sendo membro da Assembleia Nacional, onde lidera um bloco de 125 parlamentares — o maior do parlamento. Até agora, ela foi benigna com o primeiro-ministro sitiado François Bayrou, que continua batalhando apesar de não ter maioria.

Esses dias podem ter acabado.

Por que deveríamos fazer favores a alguém agora, eles dirão na sede da RN. Por que não derrubar a casa?

BBC
Hugh Schofield - Correspondente em Paris
postado em 01/04/2025 05:15 / atualizado em 01/04/2025 15:41
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