França

Marine Le Pen, líder da extrema direita da França, está inelegível

Condenada pelo desvio de fundos do Parlamento Europeu, Marine Le Pen está fora da eleição presidencial de 2027, não poderá disputar cargo público por cinco anos e terá que usar tornozeleira eletrônica. Ela classifica o veredicto como "decisão política"

Marine Le Pen chega ao tribunal, em Paris, para o veredicto: fora do tabuleiro político  -  (crédito: Alain Jocard/AFP)
Marine Le Pen chega ao tribunal, em Paris, para o veredicto: fora do tabuleiro político - (crédito: Alain Jocard/AFP)

A pouco mais de 740 dias da eleição presidencial francesa, uma decisão do Tribunal Correcional de Paris retirou Marine Le Pen, 56 anos, líder do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), da disputa pelo Palácio do Eliseu e mexeu com o tabuleiro político do país. Condenada pelo crime de peculato, ela ficará inelegível por cinco anos e terá que utilizar tornozeleira eletrônica. A Justiça também a sentenciou a quatro anos de prisão, mas converteu a pena para dois anos em regime domiciliar.

Le Pen, o RN e 24 integrantes do partido atuaram em um esquema para usar dinheiro do Parlamento Europeu para pagar os funcionários da legenda entre 2004 e 2016. Os desvios de verba pública somaram 4,1 milhões de euros (cerca de R$ 25,3 milhões). 

Horas depois da condenação, Marine Le Pen falou à emissora francesa TF1 e denunciou uma motivação "política". "Esta decisão violou completamente o Estado de Direito", declarou. "A juíza decidiu impor a desqualificação imediata para me impedir de concorrer às eleições presidenciais."

Em seu veredicto, a presidente do tribunal, Bénédicte de Perthuis, ressaltou que, além do risco de reincidência, levou em conta a "ameaça significativa à ordem pública", ao citar o fato de uma pessoa condenada em primeira instância ser candidata à eleição presidencial. Publicada no último domingo (30/3), uma pesquisa do Ifop mostra que entre 34% e 37% dos franceses estavam dispostos a votar nela no primeiro turno das eleições de 2027. 

Marine Le Pen (E) com o presidente do Reagrupamento Nacional e potencial substituto como candidato presidencial Jordan Bardella
Marine Le Pen (E) com o presidente do Reagrupamento Nacional e potencial substituto como candidato presidencial Jordan Bardella (foto: Ludovic Marin/AFP)

Sem esconder a irritação e em tom agressivo, Le Pen dedicou parte da entrevista a ataques à juíza. "Nesta noite, milhões de franceses estão indignados ao ver que, na França, no país dos direitos humanos, os magistrados colocaram em marcha práticas consideradas características dos regimes autoritários", disparou. "Milhões de franceses serão privados por uma juíza de primeira instância, sem possibilidade de apelação, da candidata atualmente considerada favorita nas eleições presidenciais. Isso deve chocar qualquer um que defenda a democracia ou o Estado de Direito." A líder do RN levantou dúvidas sobre a legitimidade de um presidente eleito, caso fosse absolvida na apelação. 

Complexidade

A reversão da inelegibilidade imediata parece complexa. Le Pen disse que pretende recorrer da decisão e esperar um julgamento rápido do recurso. Ao considerar os prazos judiciais na França, a sentença definitiva poderia ser anunciada pouco antes das eleições. Um recurso em cassação prolongaria a decisão final. A deputada ultraconservadora corre o risco de perder a cadeira de deputada na Assembleia Nacional francesa, caso o presidente Emmanuel Macron antecipe eleições legislativas.  

Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, em Paris, classificou como "muito dura" a decisão da Justiça francesa de alijar Marine Le Pen da disputa presidencial em 2007. "O cenário mais provável é que Jordan Bardella, presidente do Reagrupamento Nacional, a substitua como candidato do partido", afirmou ao Correio. "Bardella é mais favorável ao livre mercado e os conservadores que hesitam entre o RN e os Republicanos estão felizes com essa posição. No entanto, ele se mostra inexperiente, o que causa insatisfação nos conservadores mais velhos."

Segundo o especialista, os fãs mais radicais do Reagrupamento Nacional denunciam um veredicto político voltado a desacreditar Le Pen. "Os conservadores, que agora apoiam os republicanos e podem ser tentados a votar no Reagrupamento Nacional, em 2027, certamente pensarão duas vezes. A história mostra que a gestão no topo do partido é perigosa, e isso não é bom para a imagem da legenda."

EU ACHO...

Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), em Paris
Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), em Paris (foto: Arquivo pessoal )

"O impacto político e eleitoral da inelegibilidade de Marine Len ainda é incerto. Os simpatizantes centrais do Reagrupamento Nacional apoiarão o partido, pois creem que o veredicto é semelhante a uma perseguição política. O veredicto pode ter um impacto negativo, pois tem a ver com irregularidades financeiras e alguns eleitores pensarão que, se o partido pegou dinheiro ilegalmente do Parlamento Europeu, como se comportará quando estiver no comando das finanças da França?"

Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, em Paris

Da popularidade à marginalização

Marine Le Pen conseguiu estabelecer a extrema direita como um ator-chave, ao suavizar a imagem da linha ideológica sem abandonar sua plataforma. Suas pretensões políticos, no entanto, esbarraram na Justiça. A política, de 56 anos, parecia ter tudo a seu favor para chegar ao Palácio do Eliseu em 2027, mais de uma década depois de herdar as rédeas do histórico partido de extrema direita de seu pai, Jean-Marie Le Pen. 

Sem um candidato claro do partido governista para suceder o atual presidente de centro-direita, Emmanuel Macron, nas eleições, sua rival nos segundos turnos de 2017 e 2022 parecia estar em uma posição forte nas pesquisas. Le Pen viu suas ideias anti-imigração ganharem força em uma França cada vez mais de direita, mas também em um mundo onde os populistas ganham terreno, como na Itália, Hungria, Argentina e Estados Unidos. 

Advogada de formação, com seu característico cabelo loiro, construiu sua ascensão combinando as principais preocupações dos franceses, como segurança e poder de compra, com a tradicional retórica anti-imigração de seu partido. De forma metódica, a atual deputada francesa conseguiu se distanciar do passado racista e antissemita de seu pai, de quem herdou a liderança da Frente Nacional (FN) em 2011, renomeada para Reagrupamento Nacional (RN) em 2018. 

Sob a imagem de "mãe de família", disposta a defender os franceses mais "vulneráveis", Marine Le Pen tem posições controversas: defende reservar a assistência social para os franceses e o fim da reunificação familiar para migrantes, além de combater a "ideologia islamista" e proibir o véu em espaços públicos.

REVOLTA CONSERVADORA

Estados Unidos

Os Estados Unidos criticaram a exclusão de Marine Le Pen. Tammy Bruce, porta-voz do Departamento de Estado americano, considerou a decisão "particularmente preocupante, dada a agressiva e corrupta guerra  legal travada contra o presidente (Donald) Trump nos EUA". 

Hungria

O primeiro-ministro Viktor Orbán, também da extrema direita, escreveu nas redes sociais: "Eu sou Marine!". O líder nacionalista declarou que Le Pen se junta aos "patriotas" que foram vítimas de um complô, como Trump ou o vice-ministro italiano Matteo Salvini.

Rússia

O Kremlin se juntou às vozes que consideraram a sentença uma injustiça. "Cada vez mais capitais europeias seguem o caminho da violação das normas democráticas", reagiu o porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov.

Espanha

"Não conseguirão calar a voz do povo francês", declarou o líder do partido de extrema direita espanhol Vox, Santiago Abascal, que havia convidado Le Pen a Madri, em fevereiro, juntamente com Orbán e outros líderes do grupo parlamentar Patriotas pela Europa, fortalecidos pelo retorno de Trump à Casa Branca.

Holanda

O líder do partido de extrema direita que lidera a coalizão, Geert Wilders, classificou a sentença como "incrivelmente dura". "Estou convencido de que ganhará o recurso (de apelação) e se tornará presidente da França", declarou ele no X.

  • Lepenn
    Lepenn Foto: Lepenn
  • Marine Le Pen (E) com Jordan Bardella, presidente do Reagrupamento Nacional e potencial substituto como candidato presidencial
    Marine Le Pen (E) com o presidente do Reagrupamento Nacional e potencial substituto como candidato presidencial Jordan Bardella Foto: Ludovic Marin/AFP
  • Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), em Paris
    Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), em Paris Foto: Arquivo pessoal
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    Aponte a câmera do seu celular para o QR Code e assista a uma reportagem sobre a situação de Marine Le Pen Foto: QR Code
postado em 01/04/2025 06:00
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