
Uma eventual retaliação das tarifas sobre importações impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil é arriscada e pode não ser a melhor maneira de lidar com a guerra comercial. É o que afirmou o conselheiro emérito da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro.
Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu à guerra tarifária e afirmou que considera tarifas recíprocas. "Não podemos ficar parados, acreditando que só eles têm razão e que só eles podem taxar outros produtos", sinalizou o petista.
Entretanto, Monteiro avalia que a solução pode estar na negociação de cotas para manter o equilíbrio comercial. "A alternativa para minimizar esses impactos seria negociar cotas de exportação com os EUA, garantindo que o Brasil continue fornecendo aço sem ser excessivamente tributado", destacou em entrevista ao Correio.
As tarifas de 25% sobre as importações de aço e alumínio do Brasil entram em vigor nesta quarta-feira, data definida por Trump como "Dia da Libertação" dos EUA. O Brasil exporta cerca de 4,5 milhões de toneladas de aço para o país, das quais a maior parte é de produtos semiacabados, fundamentais para a indústria siderúrgica americana.
Monteiro alerta que a postura protecionista representa um retrocesso econômico, que pode prejudicar até mesmo a própria indústria americana, que depende da importação de produtos semiacabados do Brasil para abastecer sua cadeia produtiva.
Ele avalia, ainda, que uma eventual pressão interna por parte do setor privado pode reverter a imposição de tarifas. Atual presidente do Conselho Temático de Assuntos Tributário e Fiscal (CONTRIF), Monteiro também presidiu a CNI por duas duas gestões, foi senador e ministro da Indústria e Comércio no governo de Dilma Rousseff. Confira os principais trechos da entrevista.
Como avalia a postura protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à imposição de tarifas sobre o aço?
A postura adotada por Donald Trump representa um retrocesso econômico significativo. Ele resgata uma abordagem neomercantilista que está ultrapassada no mundo moderno. É como se a gente estivesse voltando ao começo do século XIX. A economia americana se tornou uma potência ao longo do tempo porque conseguiu estabelecer relações de complementaridade produtiva com outros países, permitindo um fluxo de comércio benéfico para todas as partes envolvidas. Ao adotar medidas protecionistas, ele nega essa história de crescimento e cooperação econômica. Além disso, essas medidas podem prejudicar até mesmo os Estados Unidos, pois afetam suas relações comerciais com aliados estratégicos como México e Canadá. O protecionismo pode levar a uma desaceleração do comércio internacional, que é um dos principais motores do crescimento econômico global. No final, o impacto pode ser negativo tanto para os EUA quanto para seus parceiros comerciais.
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Qual será o impacto dessa medida sobre o Brasil, especificamente na indústria siderúrgica?
O Brasil exporta aproximadamente 4,5 milhões de toneladas de aço para os Estados Unidos, sendo que a maior parte desse volume corresponde a produtos semiacabados. Esses produtos são essenciais para a indústria siderúrgica americana, pois servem como base para a produção de aço finalizado. Ou seja, as siderúrgicas americanas dependem do que importam do Brasil para manter sua produção ativa. Se o governo dos EUA impuser tarifas sobre essas importações, isso pode prejudicar tanto o Brasil quanto a própria indústria americana. Além disso, o Brasil é um dos principais compradores de carvão metalúrgico dos EUA, com importações superiores a um bilhão de dólares. Ou seja, a relação comercial entre os dois países é interdependente. Se houver sanções, pode haver prejuízos de ambos os lados. A alternativa para minimizar esses impactos seria negociar cotas de exportação com os EUA, garantindo que o Brasil continue fornecendo aço sem ser excessivamente tributado. Retaliação, por outro lado, não seria o caminho mais viável, pois não temos a mesma capacidade de imposição econômica dos EUA.
O Brasil deveria responder com medidas retaliatórias?
Não creio que a retaliação seja a melhor estratégia. Não temos o mesmo peso econômico dos Estados Unidos para adotarmos medidas de igual impacto. O melhor caminho é manter canais diplomáticos abertos e buscar uma solução negociada. O México, por exemplo, que tem uma dependência comercial muito maior dos EUA, tem adotado uma postura mais pragmática e cautelosa. O Brasil precisa reforçar o diálogo com o governo americano e demonstrar a interdependência comercial entre os dois países. Se houver uma maior pressão interna nos EUA, especialmente por parte do empresariado americano, é possível que essas medidas sejam revistas.
Como está a adoção da inteligência artificial na indústria brasileira?
Ainda estamos atrasados em relação a outros países, mas avanços estão sendo feitos. A Nova Indústria Brasil (NIB) tem um foco claro na digitalização e modernização do setor industrial. Hoje, a adoção de novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial, é essencial para melhorar a eficiência produtiva e aumentar a competitividade das empresas brasileiras. O governo, através do BNDES, tem oferecido financiamento para ajudar as empresas a investirem em tecnologia e capacitação da mão de obra. No entanto, é fundamental que o setor privado também participe ativamente desse processo. O Brasil precisa acelerar o ritmo de modernização industrial para não perder ainda mais espaço no mercado global.
Como a reforma tributária pode impactar a indústria brasileira?
A reforma tributária é essencial para recuperar a competitividade da indústria nacional. O atual sistema penaliza a produção brasileira, tornando mais barato importar bens do que fabricá-los aqui. Com a reforma, a carga tributária sobre a indústria será reduzida, tornando os produtos nacionais mais competitivos. Além disso, a reforma irá desonerar as exportações, eliminando os resíduos tributários que encarecem os produtos brasileiros no exterior. Outra vantagem é a desoneração dos investimentos, permitindo que empresas adquiram equipamentos de nova geração com custos menores. Isso contribuirá para a modernização do parque industrial brasileiro e estimulará novos investimentos no setor.
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