Qualidade de Vida

Fatores ambientais podem estar por trás do câncer colorretal

Estudo com dados de 11 países, incluindo o Brasil, analisa genoma de tumores e descobre, nos pacientes com início precoce, a "digital" de uma toxina produzida por cepas de Escherichia coli. Isso poderia explicar por que cada vez mais jovens têm a doença

Em todo o mundo, o câncer colorretal avança sobre adultos com menos de 50 anos, levando médicos e pesquisadores a investigar o porquê desse aumento entre pacientes mais jovens. Um estudo internacional, incluindo dados do Brasil, sugere que um dos fatores ambientais por trás do fenômeno é a infecção, na infância, por uma bactéria intestinal comum. 

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Segundo os pesquisadores, liderados pela Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos Estados Unidos, a exposição precoce a uma toxina chamada colibactina deixa marcas no DNA das células do cólon, e essa assinatura pode aumentar o risco de se desenvolver câncer antes dos 50 anos. A substância é produzida por certas cepas da conhecida Escherichia coli que residem na região colorretal, e tem potencial para mudar a composição genética celular. 

Publicado na revista Nature, o estudo analisou 981 genomas de câncer colorretal de pacientes com doença de início precoce e tardio em 11 países, incluindo o Brasil. Os resultados mostram que a colibactina deixa para trás padrões específicos de mutações no DNA que foram 3,3 vezes mais comuns nos pacientes diagnosticados antes dos 50 anos — especificamente em adultos com menos de 40 — do que naqueles que desenvolveram a doença após os 70. 

Força motriz

Esses padrões de mutação também foram particularmente prevalentes em países com alta incidência de casos de início precoce. "Os padrões de mutação são uma espécie de registro histórico no genoma e apontam para a exposição precoce à colibactina como uma força motriz por trás da doença de início precoce", explicou o autor sênior do estudo, Ludmil Alexandrov. 

As implicações são preocupantes, diz o pesquisador. Antes considerada uma doença de idosos, o câncer colorretal está aumentando entre os jovens em pelo menos 27 países. A incidência em adultos com menos de 50 anos dobrou a cada década nas últimas duas décadas. Segundo Alexandrov, se as tendências atuais continuarem, projeta-se que a doença se tornará a principal causa de morte relacionada a tumores oncológicos nessa faixa etária até 2030.

"Já sabemos há algum tempo que a colibactina produzida por uma cepa específica de E. coli causa mutações associadas a cânceres intestinais, e também que essas mutações provavelmente tiveram um papel no desenvolvimento inicial desses cânceres", observa Trevor Graham, professor de Genômica do Instituto de Pesquisa do Câncer, em Londres, Inglaterra, que não participou do estudo. "Nós imaginávamos que essas bactérias nocivas poderiam ter um papel no desenvolvimento de doenças de início precoce. Agora, esse trabalho fornece dados sólidos e demonstra que a hipótese está correta", avalia. 

Tardio

Alexandrov esclarece que estudos anteriores, de outras equipes e do seu próprio laboratório, haviam identificado mutações relacionadas à colibactina em aproximadamente 10% a 15% de todos os casos de câncer colorretal. Porém, essas pesquisas se concentraram em casos de início tardio ou não distinguiram a faixa etária em que a doença se manifestou. "Nosso estudo mais recente é o primeiro a demonstrar um enriquecimento substancial de mutações relacionadas à colibactina especificamente em casos de início precoce", diz. 

De acordo com a análise da equipe, os efeitos nocivos da colibactina começam cedo. Ao cronometrar molecularmente cada assinatura mutacional identificada no estudo, os pesquisadores demonstram que as mutações associadas à toxina bacteriana surgem precocemente no desenvolvimento do tumor, o que é consistente com pesquisas anteriores, que mostram que essas alterações aparecem nos primeiros 10 anos de vida. 

O estudo também revela que variantes relacionadas à colibactina são responsáveis por aproximadamente 15% do que é conhecido como "mutações driver do APC" — algumas das primeiras alterações genéticas que promovem diretamente o desenvolvimento do câncer — no tumor colorretal. "Se alguém adquire uma dessas mutações driver aos 10 anos, pode estar décadas adiantado para o desenvolvimento do câncer colorretal, que surgirá aos 40, em vez dos 60", exemplifica Alexandrov. 

Perfil

Além da descoberta da associação com a colibactina, o trabalho mostra que os perfis genéticos dos tumores variam significativamente entre países. Na Argentina e na Colômbia, por exemplo, os cientistas identificaram assinaturas inéditas nas células doentes, possivelmente relacionadas a fatores ambientais ou microbianos ainda não esclarecidos.

No Brasil, onde o câncer colorretal é o segundo tipo mais comum em homens e mulheres, o estudo aponta uma alta carga de alterações genéticas ligadas ao microbioma intestinal. Segundo os autores, isso reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção precoce — inclusive, em faixas etárias historicamente fora do radar do rastreamento. "No passado, os exames preventivos iniciavam-se aos 50 anos, porém a idade já foi reduzida para os 45. É possível que, no futuro, ocorra um ajuste nessa faixa etária", acredita Eric Pereira, gastroenterologista do Hospital e Clínica São Gonçalo, no Rio de Janeiro. 

Os pesquisadores destacam que mais pesquisas são necessárias para confirmar a relação de causa entre colibactina e o câncer em jovens. Ainda assim, os resultados abrem caminho para estratégias de prevenção inéditas, incluindo o controle de bactérias intestinais como forma de reduzir o risco da doença, acreditam. "Se conseguirmos identificar e evitar a exposição precoce à colibactina, podemos estar diante de uma nova fronteira na prevenção do câncer colorretal", conclui Alexandrov.

Em alerta 

No estudo sobre as assinaturas genéticas do câncer colorretal, publicado na revista Nature, os pesquisadores constataram que o aumento da doença em jovens não parece estar ligado a fatores hereditários conhecidos, como a Síndrome de Lynch. Segundo os autores, conduzidos pela Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), isso amplia o alerta para mudanças recentes no estilo de vida, na alimentação e na exposição a novos agentes ambientais e microbianos.

Eric Pereira, gastroenterologista do Hospital e Clínica São Gonçalo, no Rio de Janeiro, explica que é preciso considerar fatores metabólicos entre as possíveis causas do aumento do câncer colorretal entre os jovens. "A obesidade vem aumentando e é um forte fator de risco para o câncer colorretal. O sedentarismo e o diabetes também têm forte influência. Tais condições, ainda mais associadas à obesidade, aumentam o risco de desenvolver o tumor no cólon e no reto", diz. 

Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil, em São Paulo, e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Ramon Andrade de Mello ressalta que fatores de risco modificáveis, incluindo nutrição, obesidade, diabetes e composição do microbioma, podem estar associados ao aumento no número de casos de câncer no Brasil — em 727 municípios do país, a mortalidade pela doença já superou os óbitos por causas cardiovasculares. 

"É importante destacar que, hoje, não consideramos o câncer uma doença puramente genética. Agora, sabemos que também é uma doença metabólica com necessidades metabólicas únicas", explica Mello. Segundo ele, as doenças metabólicas — obesidade, hipertensão, colesterol e triglicerídeos altos — são um fator-chave no início e na progressão de vários tipos de câncer, incluindo o colorretal.

"Apenas 5% a 10% dos cânceres estão ligados a uma mutação genética específica, e nenhuma mutação única está associada a todos os cânceres", destaca Mello. "Alterações metabólicas, por outro lado, ocorrem em quase todos os cânceres. Então, faz sentido que as taxas do câncer estejam aumentando com a crescente epidemia de doenças metabólicas", assinala o oncologista de São Paulo.

Três perguntas para Danilo Munhóz, coloproctologista da Clínica Primazo

As cepas de E. coli citadas no estudo são as mesmas que causam intoxicação alimentar?

As cepas de E. coli citadas no estudo são as chamadas pks + E. coli, que carregam um conjunto de genes conhecido como ilha de patogenicidade pks. Essa ilha genética codifica a toxina colibactina, que tem efeito genotóxico — ou seja, danifica o DNA das células do hospedeiro. Essas cepas não são as mesmas que causam as intoxicações alimentares mais conhecidas; elas são mais silenciosas: costumam colonizar o intestino sem causar sintomas agudos e fazem parte da microbiota de 20% a 30% da população saudável, podendo estar presentes desde o início da vida. Portanto, são relativamente comuns, mas não causam gastroenterite clássica — e sim, potencialmente, danos cumulativos ao DNA intestinal ao longo do tempo.

A toxina produzida pela bactéria causa o câncer colorretal?

Há evidência forte de causalidade, embora ainda não se possa afirmar que a colibactina seja responsável por todos os casos. Estudos in vitro e in vivo demonstraram que a toxina colibactina causa quebras no DNA, formação de ligações cruzadas entre as fitas do DNA e mutações características. Em 2020, um estudo publicado na Nature mostrou que organoides intestinais humanos expostos a pks + E. coli desenvolveram uma assinatura mutacional específica, que foi posteriormente identificada em tumores humanos, especialmente em cânceres colorretais. O novo artigo da Nature, de 2025, reforça isso, ao encontrar essa mesma “marca digital” (assinaturas genéticas SBS88 e ID18) em tumores de início precoce, sugerindo que a colibactina foi um dos agentes iniciadores do processo tumoral. Ou seja, a toxina tem, sim, capacidade comprovada de induzir mutações ligadas ao câncer colorretal.

Ter essa toxina significa que o paciente desenvolverá câncer? 

Não, a presença da toxina não significa que a pessoa desenvolverá obrigatoriamente câncer. A colibactina é um fator de risco mutagênico — aumenta a chance, mas não garante o aparecimento da doença. Muitos indivíduos abrigam pks + E. coli por anos sem desenvolver tumores. O risco aumenta em pessoas com predisposições genéticas, como mutações em genes de reparo do DNA ou histórico familiar de câncer. Além disso, os pesquisadores encontraram a assinatura genética da colibactina (SBS88/ID18) somente em uma parcela dos tumores analisados — o que indica que nem todo câncer colorretal está ligado a essa toxina, e que a associação só ocorre em casos específicos, onde houve esse tipo de dano genético registrado no DNA tumoral. ?A toxina aumenta o risco, mas é preciso um contexto favorável ao câncer (genética, microbioma, inflamação, ambiente) para que o tumor se desenvolva.

 

Fatores de risco modificáveis elevam perigo

No estudo sobre as assinaturas genéticas do câncer colorretal, publicado na revista Nature, os pesquisadores constataram que o aumento da doença em jovens não parece estar ligado a fatores hereditários conhecidos, como a Síndrome de Lynch. Segundo os autores, conduzidos pela Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), isso amplia o alerta para mudanças recentes no estilo de vida, na alimentação e na exposição a novos agentes ambientais e microbianos.

Eric Pereira, gastroenterologista do Hospital e Clínica São Gonçalo, no Rio de Janeiro, explica que é preciso considerar fatores metabólicos entre as possíveis causas do aumento do câncer colorretal entre os jovens. "A obesidade vem aumentando e é um forte fator de risco para o câncer colorretal. O sedentarismo e o diabetes também têm forte influência. Tais condições, ainda mais associadas à obesidade, aumentam o risco de desenvolver o tumor no cólon e no reto", diz. 

Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil, em São Paulo, e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Ramon Andrade de Mello ressalta que fatores de risco modificáveis, incluindo nutrição, obesidade, diabetes e composição do microbioma, podem estar associados ao aumento no número de casos de câncer no Brasil — em 727 municípios do país, a mortalidade pela doença já superou os óbitos por causas cardiovasculares. 

"É importante destacar que, hoje, não consideramos o câncer uma doença puramente genética. Agora, sabemos que também é uma doença metabólica com necessidades metabólicas únicas", explica Mello. Segundo ele, as doenças metabólicas — obesidade, hipertensão, colesterol e triglicerídeos altos — são um fator-chave no início e na progressão de vários tipos de câncer, incluindo o colorretal.

"Apenas 5% a 10% dos cânceres estão ligados a uma mutação genética específica, e nenhuma mutação única está associada a todos os cânceres", destaca Mello. "Alterações metabólicas, por outro lado, ocorrem em quase todos os cânceres. Então, faz sentido que as taxas do câncer estejam aumentando com a crescente epidemia de doenças metabólicas", assinala o oncologista de São Paulo. (PO)

Três perguntas para Danilo Munhóz, coloproctologista da Clínica Primazo

As cepas de E. coli citadas no estudo são as mesmas que causam intoxicação alimentar?

As cepas de E. coli citadas no estudo são as chamadas pks + E. coli, que carregam um conjunto de genes conhecido como ilha de patogenicidade pks. Essa ilha genética codifica a toxina colibactina, que tem efeito genotóxico — ou seja, danifica o DNA das células do hospedeiro. Essas cepas não são as mesmas que causam as intoxicações alimentares mais conhecidas; elas são mais silenciosas: costumam colonizar o intestino sem causar sintomas agudos e fazem parte da microbiota de 20% a 30% da população saudável, podendo estar presentes desde o início da vida. Portanto, são relativamente comuns, mas não causam gastroenterite clássica — e sim, potencialmente, danos cumulativos ao DNA intestinal ao longo do tempo.

A toxina produzida pela bactéria causa o câncer colorretal?

Há evidência forte de causalidade, embora ainda não se possa afirmar que a colibactina seja responsável por todos os casos. Estudos in vitro e in vivo demonstraram que a toxina colibactina causa quebras no DNA, formação de ligações cruzadas entre as fitas do DNA e mutações características. Em 2020, um estudo publicado na Nature mostrou que organoides intestinais humanos expostos a pks + E. coli desenvolveram uma assinatura mutacional específica, que foi posteriormente identificada em tumores humanos, especialmente em cânceres colorretais. O novo artigo da Nature, de 2025, reforça isso, ao encontrar essa mesma “marca digital” (assinaturas genéticas SBS88 e ID18) em tumores de início precoce, sugerindo que a colibactina foi um dos agentes iniciadores do processo tumoral. Ou seja, a toxina tem, sim, capacidade comprovada de induzir mutações ligadas ao câncer colorretal.

Ter essa toxina significa que o paciente desenvolverá câncer? 

Não, a presença da toxina não significa que a pessoa desenvolverá obrigatoriamente câncer. A colibactina é um fator de risco mutagênico — aumenta a chance, mas não garante o aparecimento da doença. Muitos indivíduos abrigam pks + E. coli por anos sem desenvolver tumores. O risco aumenta em pessoas com predisposições genéticas, como mutações em genes de reparo do DNA ou histórico familiar de câncer. Além disso, os pesquisadores encontraram a assinatura genética da colibactina (SBS88/ID18) somente em uma parcela dos tumores analisados — o que indica que nem todo câncer colorretal está ligado a essa toxina, e que a associação só ocorre em casos específicos, onde houve esse tipo de dano genético registrado no DNA tumoral. ?A toxina aumenta o risco, mas é preciso um contexto favorável ao câncer (genética, microbioma, inflamação, ambiente) para que o tumor se desenvolva. (PO) 


 

postado em 16/06/2025 15:18
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